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Meus Caminhos (TAOS)

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Por José Maria Filardo Bassalo.


O poeta espanhol Antonio Cipriano José Maria y Francisco de Santa Ana Machado y Ruiz (Antonio Machado) (1875-1939), em 1912, escreveu o livro intitulado Campos de Castilla no qual existem os seguintes versos:

Caminante, son tus huellas 
el camino, y nada más; 
caminante, no hay camino, 
se hace camino al andar. 
Al andar se hace camino, 
y al volver la vista atrás 
se ve la senda que nunca 
se ha de volver a pisar. 
Caminante, no hay camino, 
sino estelas en la mar. 

Caminhante, são teus rastros
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar para trás
vê-se a senda que jamais
se há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.

Tomando como mote esses versos, vou tentar descrever Meus Caminhos (cujos detalhes podem ser vistos no site: www.bassalo.com.br).
Capela de São Francisco da Penitência
no Hospital da Ordem Terceira
Nasci em Belém do Pará, na Maternidade da Ordem Terceira de São Francisco, situada na esquina da hoje Rua Santo Antonio com a Travessa Frei Gil de Vila Nova, sob os cuidados do Dr. Waldemar de Freitas Ribeiro, no dia 10 de setembro de 1935, às 12 horas, meia hora antes do nascimento de minha irmã gêmea Maria José (hoje, Maria José Bassalo Crispino). Meu pai, Eládio Bassalo, nasceu no dia 13 de junho de 1897, em uma aldeia espanhola chamada Puebles de Tribes, San Miguel de Bidueira, na Província de Orense, no Caminho de Santiago de Compostela, no noroeste da Espanha. Ele chegou a Belém,em 1912, era sapateiro (consertava e fazia sapatos) e faleceu, em Belém, no dia 20 de abril de 1980. Minha mãe, Rosa Filardo, nasceu no dia 08 de março de 1900, numa aldeia italiana de nome Castellucio Inferiore, na Província de Potenza, cerca de 500 km de Roma no centro sul da Itália. Ela chegou a Belém em 1924, era lavadeira (lavava roupa para fora) e morreu, também em Belém, no dia 28 de agosto de 1999. Maria e eu éramos os últimos filhos, sendo o primeiro o Antônio, nascido em 1927, seguido da Madalena (1929-1999) e do Mário (1933). Tive também um meio-irmão: Luiz (“Corumbá”) (1923-1952).
            



Foto tirada no dia 16 de novembro de 1941, em frente o Instituto
Luso Brasileiro do professor Lobo, no Largo da Trindade.
Da esquerda para a direita: Maria José, n.i., n.i., n.i., n.i.,
José Maria (Bassalo). De pé: n.i., Madá.
Ao lado, foto do Professor Lobo, nos anos 1940
Realizei meu então Curso Primário no Instituto Luso-Brasileiro, de propriedade do Professor Raymundo Firmiano Lobo (1894-1963), casa que se localizava no Largo da Trindade, defronte da antiga Faculdade de Direito do Pará, hoje sede da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Pará. Naquele local, estudei, de março de 1943 a dezembro de 1946, sendo um aluno "medíocre-lorentziano" (é uma curvado sino-gaussiana assimétrica, ou seja, com um “cocuruto” para cima e em seu lado direito), segundo me defini anos mais tarde. Naquela época, apresentava gosto pela Matemática. Lembro-me de resolver com alguma facilidade contas de multiplicar e dividir, com fatores grandes e as famosas “englobadas”: expressões aritméticas envolvendo somas,multiplicações, divisões e potências de números inteiros. A complicação da solução decorria do fato de que essas operações eram misturadas com parêntesis, colchetes e chaves.
                   

Colégio Estadual “Paes de Carvalho”
Em fevereiro de 1947, realizei o Exame de Admissão para ingressar no Curso Ginasial do Colégio Estadual “Paes de Carvalho”(CEPC). Fui admitido por haver obtido as seguintes notas: Português – 6,5 (Escrita: 6  e Oral: 7); Matemática – 7 (7 e 7); Geografia Geral – 4 (Escrita) e História Geral – 4 (Escrita), sendo a Média Geral do Exame de Admissão: 5,6. Realizei o Curso Ginasial até 1950, com notas características de um medíocre-lorentziano, como se pode ver no Apêndice, acrescido de uma segunda época na disciplina Geografia Geral, no 10 Ano Ginasial, ministrada pela Professora Maria Amélia Ferrode Souza (1908-2008). A segunda época era uma segunda oportunidade (realizada em fevereiro do ano seguinte) dada ao aluno que fosse reprovado (nota < 4) em no máximo duas disciplinas. Creio ser oportuno registrar que foi por ocasião em que estudava para esse exame extra, no começo de 1948, que se manifestou em mim a vontade de ser engenheiro civil (único ramo da Engenharia ofertado em Belém pela então Escola de Engenharia do Pará - EEP). Depois de uma folga no estudo de Geografia Geral, eu preparava “garagens” e “diques” para guardar e lavar os carrinhos de madeira que eu próprio construía. Essa mania de “engenheirar” eu a prolonguei por todo o ano de 1948, preparando uma réplica de um “bangalô” (casa de dois andares) cuja construção estava sendo realizada na esquina da Avenida Conselheiro Furtado com a Travessa São Pedro, travessa onde eu morava. Creio ser também oportuno destacar que, nessas construções, certamente, está agênese de uma das especialidades da Engenharia Civil que mais tarde viria a exercer, quando me formei, em 1958: o cálculo estrutural. Naquela altura, eu não entendia por que não conseguia manter em pé,sem escora, o “dique” e a “marquise” de meu “bangalô”. Na confecção do “dique” e da “marquise”, eu distribuí pedaços de vergalhão, de 3/16 polegadas de diâmetro, em um pedaço de ripa, apoiada, e os revestia com uma mistura de areia, cimento e pedacinhos de tijolos, materiais esses arranjados com os pedreiros da construção referida. A escora não poderia ser retirada, pois os vergalhões não estavam devidamente engastados em outras peças da minha construção e, esse engastamento,era fundamental para a “marquise” ficar solta, conforme aprendi mais tarde quando atuei como engenheiro calculista nas diversas obras que calculei (ver essas obras, ver meu site).  Para concluir a parte de Meus Caminhos no Curso Ginasial (1947-1950) no CEPC, registro as médias gerais das disciplinas que cursei (no Apêndice, estão os nomes das disciplinas e os respectivos professores): 10 Ano Ginasial – 6,5; 20 Ano – 6,2; 30 Ano – 6,5; 40 Ano  – 7. Média Geral do Curso Ginasial – 6,55.

Agora vejamos o Curso Científico (1951-1953), que realizei também no CEPC. Contudo, nesse caminho, tive de fazer uma primeira escolha entre dois possíveis caminhos. Vejamos como isso aconteceu. Durante o Curso Ginasial estudei durante o dia, ou de manhã ou de tarde, dependendo da turma em que eu era colocado. Em virtude de dificuldades financeiras que meus pais passavam, tive de trabalhar [como contínuo, o “faz tudo”: lavar a fachada, os vidros das montras (espécie de estantes) e os objetos de seus interiores; entregar mercadoria; pagar títulos bancários, escrever o valor do preço de custo das mercadorias por intermédio de uma senha etc.] durante o dia, na antiga Casa Concórdia (Avenida João Alfredo com a Travessa Padre Eutíquio e atual Lojas Visão), de propriedade do falecido Carlos Valério dos Santos (1909-1970), para ajudar no orçamento doméstico, junto coma Madá (que era Professora no Grupo Escolar “Placídia Cardoso”, na Rua dos Tamoios, depois da então Travessa do Jurunas, hoje Roberto Camelier, no sentido do Rio Guamá) e da tia paterna Luzia (1909-1983) (que costurava sapatos), pois o Antônio já havia casado e o Mário morava com seus padrinhos, o casal Nunes Avelino (Idalina Ribeiro e Eunápio,pais do saudoso Dr. Paulo Nunes Avelino). Em vista desse emprego,iniciado em março de 1951, comecei o 10 Ano Científico, em uma turma noturna. Pois bem, como o ensino no CEPC era de ótimo nível, com excelentes professores, então a exigência era proporcional a esse ensino. Portanto, para poder manter-me no “cocuruto” (entre 5 e 8) de minha medíocre curva gaussiana-lorentziana, estudava nas folgas entre a limpeza na loja e a entrega de mercadorias compradas. Contudo, no começo de junho de 1951, percebendo que não teria tempo, a fim me preparar para as provas parciais do final do primeiro semestre, tive de fazer uma primeira escolha de Meus Caminhos: trabalhar ou estudar. Escolhi o caminho do estudo, cuja razão, até hoje, não sei explicar; deixei a Casa Concórdia e passei a me dedicar aos estudos. É claro que tive o incentivo de meus pais nessa decisão, embora tivesse de pagar um preço pela mesma: durante os três anos científicos, procurava manter uma ou duas calças e camisas que tinha, e o dinheiro para o cinema eu conseguia dando aulas particulares para o (a)s filho (a)s da vizinhança. Assim, conclui o Curso Científico (1951-1953) com as seguintes médias gerais nas disciplinas que nele cursei (ver Apêndice):10 Ano Científico  – 7; 20 Ano  – 7,8; 30 Ano  – 8,03. Média Geral do Curso Científico – 7,61.

Concluído o caminho do ensino médio, comecei o caminho do ensino superior. Como queria ser engenheiro, pois sempre gostei de “engenheirar” (segundo afirmei acima) realizei o Exame de Vestibular na EEP, em fevereiro de 1954 e fui aprovado com as seguintes notas: Desenho – 10; Física - 5; Matemática - 6; e Química – 6,com Média Geral do Vestibular: - 6,75. Nessa época, os Cursos Superiores no Brasil eram seriados, sendo 05 anos o de Engenharia Civil. A seguir, registro as médias gerais do Curso de Engenharia Civil: 10 Ano –8; 20 Ano – 7,5; 30 Ano – 7,5; 40 Ano – 8,5; e 50 Ano – 7,57. Desse modo, formei-me Engenheiro Civil (EC) no dia 08 de dezembro de 1958, com a Média Geral do Primeiro Curso Superior - 8,01. Desse modo, sai um pouquinho do “cocuruto” de minha medíocre curva gaussiana-lorentziana.

A partir de 1954, paralelamente ao meu caminho engenheiral (primeiro como aluno e depois exercendo a profissão de engenheiro estrutural e rodoviário), também trilhei o caminho professoral. Este foi iniciado, em março de 1954, no então Colégio“Abraham Levy” (que não existe mais), de propriedade da saudosa Professora Alice Antunes. Por indicação de meu saudoso o amigo, Jofre Alves Lessa (1926-1984), com quem trabalhava (eu, como desenhista, e ele, como auxiliar de engenheiro) no então Serviço/Departamento Municipal de Estradas de Rodagem (atual Secretaria de Saneamento – SESAN), ingressei naquele Colégio para ensinar Matemática, matéria de que eu gostava desde criança, conforme já registrei, para o Curso Ginasial. Concluído esse primeiro ano de magistério, tive que fazer uma segunda escolha de Meus Caminhos. A falta de professores de Física naquele Colégio levou a professora Alice a convidar-me para lecionar também essa disciplina, a partir de 1955. Embora ponderasse a ela que não conhecia muito tal disciplina e que apenas só aprendera o estudado no Curso Científico, considerando seu apelo e, talvez, por querer aprender essa maravilhosa Ciência (intuição?) escolhi que, a partir de 1955, iria ensinar apenas Física, inicialmente para o Segundo Colegial e,posteriormente, os três anos Colegiais. Para começar a trilhar esse novo caminho (Professor de Física), comecei a estudar os três volumes do livro do engenheiro norte-americano Francis Weston Sears (1898-1975) intitulado: Física I, II, III (Ao Livro Técnico, 1956) e o do engenheiro russo
Alunos do Colégio Abraham Levy, por volta de 1956.
Da esquerda para a direita:
Agachados: Abel Viana de Oliveira e não-identificado (n.i.);
Em pé: n.i.; n.i.; Bassalo; n.i.; Cláudio Da Luz
Stephen Prokopovych Timoshenko (1878-1972), intitulado Mecânica Técnica (Ao Livro Técnico, c.1954), livros esses nos quais estudei quando aluno do 20 Ano na EEP.

No “Abraham Levy” conheci o meu amigo-irmão Manoel Leite Carneiro (n.1933) que ensinava Matemática e, quem, em 1957, me indicou para ensinar Física no CEPC. Meu caminho de professor secundário caminhava paralelamente ao de estudante de engenharia e desenhista rodoviário até 1958, quando então me formei em EC, como registrei acima. A partir daí comecei meu caminho de engenheiro civil e rodoviário, ao lado do de professor secundário, até agosto de 1961,quando então, meu amigo Carneiro, indicou-me para o recém criado Núcleo de Física e Matemática (NFM) da Universidade do Pará (hoje,Universidade Federal do Pará – UFPA), criada em 02 de julho de 1957,para ensinar a Disciplina Física-Matemática. Desse modo, iniciei um novo caminho, o de professor universitário.

Tanques em frente ao Congresso Nacional patrulham a Esplanada dos Ministérios, em 1964, após o golpe militar.
Na rota de Meus Caminhos, o de professor secundário e universitário e o de engenheiro civil e rodoviário, apareceu um novo obstáculo: o Movimento Militar de 1964, cujo objetivo era o de acabar com a subversão comunista que imperava no Brasil, principalmente nas Universidades Públicas Brasileiras, e com a corrupção que acontecia nos órgãos públicos. Até hoje, desconheço as razões à época de 1964, haver sido acusado de comunista, já que nunca militei em nenhum partido da  esquerda (nessa época, o mais visado era o Partido Comunista Brasileiro, o chamado “Partidão”), mas apenas fui seu simpatizante, daí ser considerado, decerto, como um perigoso comunista e, portanto, uma persona non grata ao sistema ideológico direitista que se instalou no Brasil, inclusive em Belém. Desse modo, no final de ano de 1964, tive que fazer uma nova escolha em Meus Caminhos: carreira profissional ou carreira científica. Creio ser oportuno dizer que,embora com o perfil de comunista que me haviam definido, nunca respondi a processo de subversão, cuja razão, creio eu, por ser genro do escritor brasileiro Inocêncio Machado Coelho Neto (1909-2001), que não admitia em sua relação intelectual com a esquerda ou com a direita, que ela tomasse o viés ideológico.

Jayme Tiomno
Havendo escolhido a carreira científica, aceitei o convite feito pelos físicos brasileiros Jayme Tiomno (1920-2011) e Roberto Aureliano Salmeron (n.1922), de ir para o Instituto Central de Física da Universidade de Brasília (ICF/UnB), na qual cheguei em março de 1965, com uma Bolsa de Estudos do Centro Latino-Americano de Física (CLAF). O projeto que eles tinham em mente para mim era o de me tornar um físico para trabalhar na montagem e posterior operação de um acelerador de partículas (cíclotron) que havia sido doado, em outubro de 1964 ao Governo Militar Brasileiro, pelo então Presidente da França,General Charles André Marie Joseph de Gaulle (1890-1970). Portanto,para iniciar esse caminho científico, cursei algumas disciplinas do Curso de Bacharelado em Física e que foram as seguintes e respectivas notas: Primeiro semestre - Eletrônica Básica I (MS); Variáveis Complexas (SS); Eletromagnetismo I (SS); Física Atômica I (SS). Nosegundo semestre: Eletrônica Básica II (MS); Eletromagnetismo II(SS); Matemática para Físicos (SS); Física Atômica II (MS). Registre-se que esses conceitos têm o seguinte significado: MS – Médio Superior, equivalente à nota 8;  SS – Superior, equivalente à nota 10. Considerando essas notas, temos: Média Geral do Segundo Curso
Roberto Aureliano Salmeron
Superior – 9,25. 
A crise que aconteceu na UnB, em setembro/outubro de 1965, em virtude da interferência ideológica do Governo Militar em seu Corpo Docente, culminou com o pedido de demissão voluntária de 223 professores [sobre essa crise, ver detalhes no livro do Professor Salmeron intitulado: A Universidade Interrompida – Brasília: 1964-1965(EDUnB, 1999/2005/2012)], demissão inclusive dos Professores Salmerone e Tiomno e, com isso, meu caminho científico foi interrompido. Voltei a Belém, no final de outubro de 1965, e retomei minhas atividades apenasde professor universitário e de engenheiro rodoviário, deixando deser professor secundário (no final do primeiro semestre de 1966) e deser engenheiro estrutural.

Em dezembro de 1967, o Professor Tiomno conquistou a Cátedra de Física Superior, do então Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo(DF/FFCL/USP). Em vista disso, convidou seus antigos alunos da UnB para retomarem seus caminhos científicos que haviam sido interrompidos nessa Universidade, conforme destaquei antes. Aceitei o convite e de posse de uma Bolsa de Estudos da CAPES-Fundação Ford, fui para a USP,em março de 1968.
Foto tirada, em 1969, de um dos blocos do
Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP)
Fiquei alojado no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP), Bloco F, apartamento 505, com o Marcelo Otávio Caminha Gomes (n.1941), que havia sido meu colega na UnB, e meu ex-aluno no CEPC. Desse modo, minha formação pós-graduada no DF/FFCL/USP iniciou-se com uma entrevista com o saudoso professor-orientador Jorge André Swieca (1936-1980) indicando-me quais disciplinas eu deveria cursar. Assim, cursei as seguintes disciplinas e respectivas notas: Mecânica Quântica I (C); Eletrodinâmica ClássicaI (B); Eletrodinâmica Clássica II (A); Introdução à Teoria da Relatividade (A). Como aluno-ouvinte, e por recomendação do Professor Swieca, frequentei o curso de Introdução à Mecânica Quântica, do quarto ano do Bacharelado em Física, da USP, ministrado pelo Professor Luís Carlos Gomes (n.1931) e o Curso de Extensão de Física Atômica, ministrado pelo Professor José Leite Lopes (1918-2006), na Escola Politécnica da USP.

A edição do Ato Institucional nº 5, no dia 13 de dezembro de 1968, por parte do Governo Militar Brasileiro, provocou uma profunda alteração em meu caminho científico. Com efeito, como o CRUSP era considerado uma grande célula comunista, no meio da madrugada do dia 17 de dezembro de 1968, ele foi invadido por tropas do II Exército e da Polícia Militar do Estado de São Paulo e, depois de uma tortura psicológica, fomos (cerca de 1.200 cruspianos) levados para a Prisão Tiradentes, fichados como comunistas e, por interferência do Professor Tiomno, fomos soltos por volta das dez (10) horas da noite daquele mesmo dia (ver detalhes em meu blog). Como veremos mais adiante, foi essa prisão que me impediu de sair do Brasil para realizar estudos de pós-graduação [stricto sensu] na França. Em março de 1969, retomei meu caminho científico, e completei os seguintes cursos (e notas respectivas), ainda no DF/FFCL/USP: Dosimetria e Física das Radiações (A), Introdução às Partículas Elementares (C);Relatividade e Cosmologia (A); e Magnetohidrodinâmica Não-Relativista (A), resultando em uma Média Geral da Pós-Graduação Stricto Sensu – 8,5. Registre-se que, por indicação do Professor Tiomno, que seria meu orientador de Tese de Mestrado em Física de Partículas Elementares, cursei uma disciplina de graduação, Física Matemática,com a Professora Carmen Lys Ribeiro Braga (1923-1989). E, por minha conta, cursei a disciplina Mecânica Estatística, com o Professor Newton Bernardes (1931-2007), disciplina oferecida para professores e alunos de Química da USP.

Foto tirada pelo físico cearense Luiz Carlos Campelo Cruz, no dia 17 de dezembro de 1968,
por ocasião da invasão do CRUSP pelo Exército Brasileiro, com cerca de 17 tanques de guerra.
Essa invasão foi decorrente do AI-5, de 13 de dezembro de 1968.
Em consequência do Ato Complementar Número 51, de 17 de abril de 1969, o Professor Tiomno foi compulsoriamente aposentado e, portanto, meu caminho científico sofreu nova interrupção e, desse modo, uma nova escolha se apresentou para mim: trocar o caminho científico que havia sido determinado pelos Professores Salmeron e Tiomno, qual seja, o de trabalhar em Física de Partículas Elementares, ou aceitar o convite que me fora feito pelo físico brasileiro Mauro Sérgio Dorsa Cattani (n.1942), em julho de 1969, para trabalhar em Física de Plasmas. A proposta de meu amigo Cattani era a de eu começar a estudar a Forma de Linhas Espectrais, ir para Orsay, na França, em 1972, e desenvolver um trabalho de pesquisa no Laboratoire d’Infrarouge da Faculté des Sciences de Paris, com o Professor P. Barchewitz, que resultaria em meu Mestrado a ser defendido na USP. Como o então Serviço Nacional de Informações (SNI) não me permitiu sair do Brasil [mesmo tendo uma Bolsa de Estudos do CNPq (hoje, Conselho Nacional de Pesquisas e Desenvolvimento Científico) e liberação por parte do Ministério da Educação] em consequência de ser fichado como um “autêntico comunista” [decorrente de minha atuação na Universidade Federal do Pará (UFPA) (ver mais adiante) e, também, pela prisão em São Paulo] recebi o título de Mestre em Física do Estado Sólido, pela USP,em 1973, sendo orientado por meu amigo Cattani.

Mas, antes dessa cassação branca, é oportuno narrar um episódio também ligado aos Meus Caminhos. Quando voltei para Belém, em 1969, tive dificuldades para preparar a Tese de Mestrado, pois a única coleção de revistas científicas que existia na Biblioteca da UFPA, era a da Physical Review. Como trabalhava como engenheiro no DMER e dava aulas na UFPA, acrescido do fato de que não existia nenhum físico em Belém com quem poderia discutir o tema de meu Mestrado, parei para refletir se deveria ou não continuar o meu caminho científico. O retorno a esse caminho aconteceu, em 1970, quando participando de um Congresso sobre Ensino de Física, no Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, vi um folheto da pós-graduação da USP que me relacionava como um dos alunos de pós-graduação e com a Dissertação de Mestrado em andamento, sob a orientação do Cattani. Aí, então, resolvi continuar o trabalho de pesquisa com o Cattani e, por isso, ele propôs minha ida a Orsay para trabalhar com o Prof. Barchewitz. O final desse episódio está descrito no parágrafo anterior.

Obtido o Mestrado, pensei fazer o Doutoramento ainda na França e, para isso, em 1974, pretendia trabalhar em Meudon, na Sectiond’Astrophysique do Observatoire de Paris, com o Professor Henry van Regemorter (1925-2002), visando meu Doutoramento também a ser defendido na USP. Em virtude de novo impedimento para a minha saída do Brasil, obtive o título de Doutor em Ciências: Física de Estado Sólido, também pela USP, em 1975, ainda orientado por meu amigo Cattani. É oportuno registrar que, por mais duas vezes, fui impedido de sair do Brasil, desta feita, para fazer Pós-Doutoramento: em 1979, ainda em Meudon, com o professor Barchewitz; e, em 1985, na Universidad Autonoma Metropolitana (UAM), em Iztapalapa, no México, com o Professor Jorge Barojas W. Acabei fazendo um estágio de Pós-Doutoramento no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, com o Professor Juan José Giambiagi (1924-1996), em 1986, ocasião em que estudei a Quebra Espontânea de Simetria em Teorias de “Gauge”, estudo esse que me permitiu fazer um artigo sobre o Bóson de Higgs, publicado no site: http://aparaciencias.org, em agosto de 2012. Note-se que o impedimento de saída de “perigosos subversivos” para o exterior ficou conhecido como cassação branca.

Em vista do impedimento de seguir um caminho científico no exterior, resolvi então, agora na UFPA, seguir apenas o caminho acadêmico como Professor Universitário [Professor Assistente, Adjunto(decorrente de Concurso Interno, em 1974) e Titular (decorrente de Concurso Público, de provas e títulos, seguido da defesa de Tese, em novembro de 1989)], no Departamento de Física e na Escola de Engenharia da UFPA, tais como: publicar artigos de pesquisa original (em Física da Matéria Condensada e Mecânica Quântica de de Broglie-Bohm); ministrar disciplinas (de graduação e pós-graduação: lato e stricto sensu)com textos próprios; ajudar na formação de professores do ensino médio e superior; e fazer divulgação científica, por intermédio de palestras; mini-cursos, publicação de artigos em revistas nacionais e internacionais,em jornais, e no site www.searadaciencia.ufc.br, atividade essa realizada isoladamente e com a participação de outros professores, e que se resume nos seguintes números (outubro de 2012): 32 livros; 37 capítulos de livros; 57 trabalhos de pesquisa original; 229 trabalhos de divulgação científica; 224 palestras, seminários e mini-cursos; 170 artigos jornalísticos; 18 entrevistas; e ministrei 24 disciplinas de graduação e 22 de pós-graduação (lato e stricto sensu).

É oportuno destacar que os 54 trabalhos de divulgação científica que publiquei na Revista ContactoS, da Universidade Autónoma Metropolitana, no México, foi o motivo dessa Revista me fazer uma homenagem em seu Número 82, Octubre-Diciembre 2011, no qual escolheram oito artigos que publiquei na mesma, desde 1988, e com um Editorial justificando essa homenagem.

Além do trabalho acadêmico relatado acima com o objetivo de divulgar mais amplamente meu caminho acadêmico, pertenço a diversas Sociedades e Academias Científicas, tais como: Sociedade Brasileira de Física (SBF); Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) (fundador); Sociedade Portuguesa de Física (SPF); Academia Paraense de Ciências (APC) (fundador); Academia Roraimense de Ciências (ARC);Academia de Ciências de New York; e PEN Clube.

Creio ser ainda oportuno destacar que, na década de 1980 e final da década de 1990, participei de três eventos no sentido de divulgar e apoiar politicamente a Ciência Paraense. O primeiro deles foi a fundação da Academia Paraense de Ciências (APC), em 23 de agosto de 1982, por um grupo de professores da UFPA: minha mulher Célia Coelho Bassalo (n.1939) e eu, o casal Maltez: Herberto e Maria Gil Lopes (n.1940), o saudoso Paulo de Tarso Santos Alencar (1940-2011), Waterloo Napoleão de Lima (1940-2009) e Maria Helena Bentes (n.1946).Em 1985, de 17 a 21 de junho, organizamos o Primeiro Simpósio Sobre a História da Ciência e da Tecnologia no Pará, cujos Anais, em dois Tomos, foram publicados pela então Gráfica e Editora Universitária da UFPA (17 de junho de 1985). Dificuldades na sua organização fizeram com que a APC ficasse mais de 20 anos fora de atividades, até ser novamente fundada, em janeiro de 2009, em caráter puramente virtual(http://aparaciencias.org), com a participação de mais dois fundadores: o físico brasileiro Francisco Caruso (n.1959) e o químico brasileiro Robson Fernandes de Farias (n.1967).

O segundo evento da década de 1980 referido acima foi a tentativa da criação do Partido Verde (PV), em Belém, em 1985, na residência do Casal Maltez, na Rua Joaquim Távora 510, com a participação minha e da Célia, bem como a do historiador Armando Alves Filho (n.1946). A iniciativa de criar o PV partiu do contato que o Herberto manteve com Hamilton Villela (n.1935), que havia lançado em Curitiba, em 1982, as primeiras ideias da criação de um partido com base em três ações fundamentais: básica; homem  natureza; homem  sociedade. Note-se que o PV foi criado no Rio de Janeiro, em 1986, e devidamente registrado no Superior Tribunal Eleitoral.  Creio ser oportuno registrar que quando fui aluno ou professor no CEPC e na UFPA, nunca fui um ativista político de esquerda, ou seja, nunca pertenci a nenhum partido político, como afirmei acima. Era apenas um simpatizante do socialismo, como ideologia, pois acreditava que um governo socialista (de esquerda) seria capaz de diminuir a brutal desigualdade social dos governos liberais ou neoliberais (de direita). Hoje, depois de conhecer o pensamento do neurologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939): - O homem não é um ser social, pois ele é assassino, canibal e incestuoso e, portanto, não pode construir uma sociedade socialista, não acredito mais que a ideologia (de direita ou de esquerda) seja solução para combater a ambição humana manifestada historicamente pela ação do homem contra o próprio homem (escravidão, guerras, preconceitos, prepotências etc.). Acredito que a civilização humana se autodestruirá exatamente por essa ambição.

O terceiro evento aconteceu em 1998, quando o saudoso Paulo de Tarso e eu iniciamos o Projeto de Restauração da Memória Educacional do Pará (PRMEP) que objetivava a publicação das Teses de Cátedra (Cadeira) defendidas no antigo Gymnasio ``Paes deCarvalho” (hoje, CEPC) e na antiga Escola Normal do Pará [hoje, Institutode Educação do Estado do Pará (IEEP)], entre as décadas de 1910 e 1950. Esse projeto teve o apoio logístico da UFPA e financeiro da então Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio-Ambiente (SECTAM) do Estado do Pará, por intermédio de seu Fundo de Ciência e Tecnologia (FUNTEC).Até minha aposentadoria compulsória na UFPA, no dia 10 de setembro de 2005, esse Projeto publicou as seguintes Teses: 1) Ruy da Silveira Britto,Conjuntos Lineares: Sucessão. Cadeira de Matemática (CEPC), 1941/1999; 2) Francisco Paulo do Nascimento Mendes, Raízes do Romantismo. Cadeira de Literatura (IEP), 1944/1999; 3) Maria Annunciada Ramos Chaves, O Açúcar na História do Brasil. Cadeira de História do Brasil (CEPC), 1952/1999; 4) Maria Amélia Ferro de Souza, O Papel do Mar na Economia do Mundo. Cadeira de Geografia Geral(CEPC), 1945/2000; 5) Pedro Amazonas Pedroso, O Papel da Hipófiseno Concerto Endócrino. Cadeira de História Natural (CEPC), 1948/2001; 6) Aloysio da Costa Chaves, Aspectos Geo-Humanos do Vale do Gurupi. Cadeira de Geografia do Brasil (CEPC), 1946/2002; 7) Benedito de Abreu Sá, Considerações sobre as Novas Teorias de Ácidos,Bases e Sais. Cadeira de Química (CEPC), 1947/2005. Ainda dentro doPRMEP foram publicados os seguintes livros (Memórias Especiais): I) Clóvis Moraes Rego, Subsídios para a História do Colégio Estadual ``Paes de Carvalho’’, 2002; II) Júlio César Ribeiro de Souza, A Dirigibilidade da Navegação Aérea (com textos de Fernando Medina do Amaral e de Luís Carlos Bassalo Crispino), 2003, financiado peloSEDEX; III) Clóvis Moraes Rego, Carlos Gomes no Pará, 2004.

Para concluir este artigo sobre Meus Caminhos, creio serop ortuno falar do caminho institucional que percorri tendo em vista a criação de instituições que objetivam estudar e resolver academicamente problemas tecnológicos próprios da região amazônica. O primeiro deles está relacionado ao petróleo amazônico. Vejamos como ocorreu esta saga. Em janeiro e fevereiro de 1962, o Professor Carlos Alberto Dias(n.1937) ministrou o Curso de Extensão Universitária intitulado Matemática Aplicada à Física e Introdução à Física Atômica no NFM/UPA. Enquanto o Dias ministrava o referido Curso, ele e eu, em conversas no carro que eu possuía à época, um Vanguard, durante o nosso deslocamento para o NFM, idealizamos um plano de formação de paraenses, tendo em vista a tese do Dias de que existia petróleo na Amazônia, contra a tese do geólogo norte-americano Walter K. Link(1902-1982). Este havia preparado, em 1961, um relatório – o famoso Relatório Link - para a PETROBRÁS, no qual afirmava a inexistência de petróleo na Amazônia, apesar do poço perfurado em Nova Olinda, localizado na bacia do Médio Amazonas, haver jorrado petróleo, em 1955.Pois bem, para o Dias, o método de prospectar petróleo na Amazônia é que estava errado, pois seus engenheiros usavam ondas sonoras, decorrentes de explosão de dinamite (método sísmico), que não tinham energia suficiente para penetrar a camada de basalto, acima do lençol de petróleo. Dias, que havia estudado Eletromagnetismo com o professor Herch Moysés Nussenzveig (n.1933), no CBPF, acreditava que a maneira de penetrar aquela camada seria por intermédio de ondas eletromagnéticas.

Com essa ideia em mente, e considerando ser esse método de prospectar um método geofísico, Dias e eu começamos a pensar na formação de um grupo de físicos, geólogos e geofísicos paraenses queria promover o desenvolvimento científico e tecnológico de nossa região amazônica. Assim, logo em março de 1962, iniciamos essa formação. O professor Curt Rebello Sequeira (1936-1991), do NFM, foi fazer um curso de Física no CBPF, onde já se encontrava o professor Fernando Medeiros Vieira (n.1924), também do NFM, estudando Física. Por indicação do professor Djalma Montenegro Duarte (1914-1984) e minha, dois alunos da EEP foram transferidos para o Rio, a fim de concluírem, na FNFi, o Bacharelado em Física: Marcelo Gomes e Carlos Alberto da Silva Lima(n.1940), meus ex-alunos do CEPC. Todas essas pessoas, que saíram de Belém para o CBPF, tiveram sua aceitação nessa instituição de pesquisas físicas, graças à indicação do Dias. É oportuno registrar que Marcelo e Carlos Lima foram com bolsas de estudos concedidas pela UPA.

A partir de 1963, houve um processo sistemático de seleção de alunos do CEPC para prestar Vestibular na antiga Universidade do Brasil (hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro), nos cursos de Física e Geologia. Desse modo, os primeiros estudantes escolhidos por mim, foram: Bernardino Ribeiro de Figueiredo (n.1946), Carlos Alberto Lobão da Silveira Cunha (n.1947), Manoel Gabriel Siqueira Guerreiro (n.1939), Herberto Gomes Tocantins Maltez (n.1939), João Batista Guimarães Teixeira (n.1946), José Haroldo da Silva Sá (n.1944), José Ricardo de Souza (n.1944), José de Seixas Lourenço (n.1944), Olivar Antônio Lima de Lima (n.1943), Raimundo Netuno Nobre Villas (n.1944), Romualdo Homobono Paes de Andrade (n.1946) e Sérgio Cavalcante Guerreiro(n.1942). Alguns deles com Bolsas de Estudo da antiga Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), em Belém, ou do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) sediado em Manaus. Na continuação desse ambicioso plano, tivemos algumas dificuldades na SPVEA. Por exemplo, em 1967, uma alta personalidade desse órgão amazônida (deixo de enunciar seu nome, por não haver um documento oficial sobre essa negação) negou uma bolsa de estudos para o paraense Antônio Gomes de Oliveira (n.1941) fazer o Mestrado em Física Nuclear na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), por achar que “a Amazônia não precisava de físicos nucleares’’. Por sua vez, o Professor Djalma Batista, então Diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), sempre apoiou nosso projeto sem nenhuma restrição.

Contudo, o Movimento Militar de 1964 provocou uma separação desse grupo de paraenses. Uma parte foi para São Paulo,outra para Brasília, e os demais ficaram no Rio. Nessa altura, eu continuava a lecionar na UFPA e no CEPC. O Dias, em 1964, foi para os Estados Unidos, e fez seu Doutoramento em Geofísica, na Universidadede Berkeley, concluído em 1968. Aliás, sua Tese de Doutoramento, na qual desenvolveu um método para medir a polarização elétrica induzida e a polarização em rochas, recebeu um grande elogio por parte dos famosos geofísicos, o norte-americano James R. Wait (1924-1998) e o russo A. A. Kaufman.

Quando o Dias retornou ao Brasil, em setembro de 1968, tentou montar um Grupo de Geofísica no Pará, porém sua proposta foi rejeitada por alguns professores de Geologia que tinham prestígio junto à Reitoria da UFPA. Havia uma insinuação de que ele dirigia um grupo de comunistas e eu era o chefe de uma “célula comunista” em Belém. Ele,então, foi para a Universidade Federal da Bahia. Foi também em 1968 que o Lourenço foi fazer Doutoramento na Universidade de Berkeley. 

Um novo contato meu com o Dias, aconteceu em 1972, por ocasião da chegada do Lourenço ao Brasil. Como havia um novo Reitor da UFPA, o Professor Aloysio da Costa Chaves (1920-1994), e meu sogro, o Professor Machado Coelho, seu Chefe de Gabinete, Dias e eu achamos que era a grande oportunidade para implantarmos o “grupo de pesquisadores paraenses invariante por uma transformação de Reitor”,como eu costumava dizer, que iria promover o nosso tão sonhado e esperado desenvolvimento do Pará, e quiçá da Amazônia. Desse modo, o Dias apresentou o projeto de criação do então Núcleo de Ciências Geológicas e Geofísica (NCGG) ao Professor Aloysio. Ao receber o projeto, o Reitor percebeu uma velada rejeição inicial [acredito que tenha sido do Serviço Nacional de Informações-Secção Pará (SNI/PA)], sobre a possibilidade da instalação do grupo, em virtude da suspeita de que seus membros eram “perigosos comunistas”, conforme registramos acima. Em vista disso, o Dr. Aloysio foi conversar com meu sogro. Este sabia da formação desse grupo, pois quando os seus componentes vinham passar férias em Belém, iam conversar comigo, onde eu morava com meu sogro, na Praça da República. O Professor Machado Coelho disse ao seu amigo Reitor: certamente, se tratava de intriga semelhante como a que acontecera quando o SNI/PA vetou o nome dos Sub-Reitores escolhidos pelo Dr. Aloysio, momento em que este iniciou seu Reitorado em 02 de julho de 1969. Nessa ocasião, Dr. Aloysio respondeu que o Reitor era ele e, portanto, responsável por sua equipe. A mesma atitude ele tomou, em 1972, para implantar uma nova linha de ensino e pesquisa na UFPA: a GEOCIÊNCIAS.

Como o Dias não poderia vir a Belém, pois estava envolvido na consolidação do Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Geofísica da Universidade Federal da Bahia (PPPG/UFBA), que iniciara em março de 1969, ele me convidou para implantar o NCGG. Para isso, era necessário que eu fizesse um estágio de seis meses no PPPG/UFBA. Agradeci o convite e disse-lhe que o melhor elemento de nosso grupo para ser Coordenador desse Núcleo seria o “Louro” (como chamávamos o Lourenço), pois ele acabara de se doutorar em Geofísica, e eu ainda não tinha nem terminado o meu Mestrado em Física, o que só aconteceu em 1973, na Universidade de São Paulo (USP). Assim, Lourenço, o casal Maltez, que haviam estagiado seis meses no PPPG/UFBA, Antonio Oliveira, Gabriel e Sônia Guerreiro, e eu próprio, iniciamos a Geociências no Pará, tendo como Consultor Científico, o Dias, cujo início dessa função ocorreu em 1971. Sobre a implantação do NCGG/UFPA é importante destacar o apoio irrestrito que tivemos, além dos já mencionados (Dr. Aloysio e Professor Machado Coelho), do professor José Monteiro Leite (1922-2008), da UFPA, do saudoso professor Guilherme Maurício Souza Marcos de La Penha (1942-1996), Presidente da Financiadora de Projetos(FINEP), e dos professores Antonio Moreira Couceiro (1914-1978) e Manoel da Frota Moreira (1920-1986), respectivamente, Presidente e Diretor Científico do então CNPq. Ainda sobre a implantação do NCGG/UFPA, creio ser importante destacar a criação da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP) da UFPA, cuja ideia foi,principalmente, do Dias e minha, com o apoio do Lourenço, com o seu projeto elaborado pelo Dias, em 1976, apresentado e defendido por mim no Conselho Superior de Ensino e Pesquisa (CONSEP).
Foto tirada em abril de 1985, por ocasião da criação do Curso de Mestrado em Física.
Da esquerda para a direita: José Tadeu, Bassalo e Lindalva Ferreira
Em 1989, por ocasião da votação da Constituição Estadual Paraense (CEP), com a minha assessoria, o então Deputado Estadual Aldebaro Barreto da Rocha Klautau (n.1943) apresentou o projeto de criação de um fundo de amparo à pesquisa e ao desenvolvimento do Estado do Pará, que se transformou no artigo 291 da CEP. Ainda como parte da formação de profissionais competentes para o desenvolvimento científico do Pará, eu e mais os professores Carmelina Nobuko (n.1942), João Furtado de Souza (n.1953), João Sandoval Bittencourt de Oliveira (n.1943), Lindalva do Carmo Ferreira (n.1946), Orlando José Carvalho de Moura (1942-2012), Luiz Sérgio Guimarães Cancela (n.1946), Paulo Alencar, Henrique Santos Antunes Neto (1952-1989) e José Tadeu de Souza Paes (1952-1997) criamos o Mestrado em Física na UFPA, em 1986.

Concluindo o relato desse meu primeiro caminho institucional é interessante registrar que esse nosso “sonho” (do Dias emeu) representa um resultado fantástico [sobre esse resultado, ver, por exemplo: G. C. L. Zarur, 1989. Ciência, Poder e Cultura no Brasil: ocaso da Geofísica Aplicada. Ciência e Cultura 41, p. 319-328; D.Proubasta, 1999. Regional Focus: Brazil – Carlos Alberto Dias. TheLeading Edge 18, p. 826-829; L. J. Gouveia, 2000. Geofísica na UFPA: 28 anos de pesquisa e formação de recursos humanos. TN Petróleo16, p. 78-79; C. A. Dias, 2007. Odisséia de 50 anos de uma vida acadêmica: uma visão retrospectiva na celebração dos meus 70 anos. 10th International Congress of the Brazilian Geophysical Society.Rio de Janeiro, 19-22 de Novembro; Sociedade Brasileira de Geofísica, 2011. SBGf: Três Décadas Promovendo a Geofísica (EdSBGf)], pois interferiu nos métodos de prospecção continental de petróleo por parteda PETROBRÁS.

Agora, em 2012, 50 anos depois de iniciar meu primeiro caminho institucional, eu e os físicos e engenheiros paraenses Antonio Boulhosa Nassar (n.1952) e José Felipe de Almeida (n.1958) temos um novo “sonho”, qual seja, o de estudar e resolver, academicamente,alguns problemas relacionados à região Amazônica, levando em consideração a presença da floresta e rios. Assim, para esse meu segundo caminho institucional, nós três usaremos a mesma metodologia empregada no meu primeiro caminho institucional, ou seja, trabalharemos na formação de pessoas altamente qualificadas no tema em questão. Para isso, partiremos do Curso de Engenharia-Física que está sendo implantado no Instituto Ciberespacial (ICEBE) da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), pelo professor Felipe, e mais três paraenses: o engenheiro computacional Emerson Cordeiro Morais (n.1977), o físico Glauber Tadaiesky Marques (n.1981) e o físico e geofísico Paulo Roberto de Carvalho (n.1962), com a assessoria científica minha e do Nassar, e a colaboração do físico paraense Benedito Lobato (n.1966), professor da Secretaria de Educação do Estado do Pará(SEDUC/PA) e especialista em Magnetofluidodinâmica.
                   Basicamente, o Curso de Engenharia-Física é composto de duas fases distintas: 1) formação em ciência básica (3 anos); 2) formação em ciência aplicada (engenharia) para um dado problema amazônico (2anos). Nos três primeiros anos em que for oferecido o Curso em tela, o foco será baseado em Sistemas Complexos, pois,
certamente, é um problema importante para o entendimento do clima e da produção de oxigênio (O), porque, certamente, é um problema importante ao entendimento do clima mundial, particularmente, o do hemisfério sul. Nos anos seguintes, o foco poderá ser dirigido a outros tipos de problemas que se encontram ainda "abertos" sobre a biodiversidade amazônica, os quais se precisam ser entendidos e resolvidos. [Nassar, A. B., Almeida, J. F. e Bassalo, J. M. F. Engenharia-Física na Amazônia, in: Caruso, F. (Editor), Ciência e Tecnologia: Um Diálogo Permanente (Academia Paraense de Ciências/FundaçãoMinerva, 2011), p 99-113].                  
                   Creio ser oportuno ressaltar que, como esse projeto é um PROJETO DE ESTADO, este deverá receber o apoio das UniversidadesPúblicas Paraenses (UFRA, UFPA e UEPA), assim como de órgãos de fomento à pesquisa e desenvolvimento: FAPESPA, CNPq e FINEP. 

                          
APÊNDICE

                   Neste Adendo, vou apresentar uma relação das disciplinas eseus respectivos professores, e as notas que tirei com eles, bem comodos Títulos Acadêmicos que obtive. Por falta de informação nos Cartórios de Registro de Nascimento e de Morte, em Belém do Pará, alguns de meus professores estão sem essas datas. 

                   1. Curso Ginasial

                        1.1 – Primeiro Ano (1a-6a)
                   
                         Canto Orfeônico (7,3) – Maria Luiza Vela Alves (1909-1980);                          Desenho (7,4) – Antônio Ângelo Nascimento;Francês (6) – Yolande de Carvalho e Chaves (1894-1969); Geografia Geral (4,5) – Maria Amélia; História Geral (4,8) – Rubens Cavalcante Silva; Latim (4,9) – Hélio Frota Lima (1888-1975); Português (5,9) – Clóvis da Silva Moraes Rego (1925-2006): Matemática (8,2) – AlírioCésar de Oliveira (1922-2005); Trabalhos Manuais (9,1) – LeoldolinaPonte de Souza.

                        1.2 – Segundo Ano (2a-4a)
                   
                         Canto Orfeônico (8,3) – Vela Alves; Desenho (6,1) – Ângelo Nascimento; Francês (6,5) – Maria Estelina Valmont; Geografia Geral (6,4) – Maria Amélia; História Geral (4,0) – José Alves Maia;Inglês (7,4) – Hugh Moresby Kirby; Latim (6,0) – Frota Lima; Português(4,4) – Aulomar Lobato da Costa; Matemática (6,6) – Alírio César;Trabalhos Manuais (9,4) – Leoldolina Ponte.

                        1.3 – Terceiro Ano (3a-4a)
                   
                         Canto Orfeônico (7,6) – Vela Alves; Ciências Naturais(6,3) – Antônio Augusto de Carvalho Brasil; Desenho (6,5) – Omir Corrêa Alves (n.1920); Francês (4,9) – Emiliana Sarmento Ferreira; Geografia do Brasil (8,2) – Aloysio Chaves; História do Brasil (6,7) – Maria Anunciada Ramos Chaves (1915-2006); Inglês (7,8) – Hugh Kirby; Latim(5,6) – Frota Lima; Português (5,8) – Antônio Gondim Lins; Matemática(5,2) – Renato Pinheiro Conduru (1926-1974).
                        
                         1.4 – Quarto Ano (4a-2a)
                   
                         Canto Orfeônico (7,8) – Vela Alves; Ciências Naturais(6,3) – Henry Checrala Kayath (1928-2002); Desenho (9,8) – Omir Alves;Francês (4,2) – Yolande Chaves; Geografia do Brasil (6,9) – Aloysio Chaves; História do Brasil (6,4) – Anunciada Chaves; Latim (7,1) –Remígio Fernandez (1881-1950)/Frota Lima; Português (6,7) – AntônioGondim; Matemática (7,3) – Luiz Gonzaga Baganha (1921-2008).
    
                         Média Geral do Curso Ginasial – 6,55

              2. Curso Científico

                        2.1 – Primeiro Ano (1a-3a)
                   
                         Desenho (6,6) – João Pinheiro dos Prazeres; Espanhol(6,8) – Helena Montero Valdez; Física (7,6) – José Maria Hesketh Conduru(1900-1974); Geografia Geral (8,2) – José Apolinário da Costa; História Geral (7,4) – Júlio de Alencar (n.1923); Literatura Francesa (6,6) – Américo Bringel Guerra; Literatura Inglesa (5,6) – Hugh Kirby;Literatura Portuguesa (7,1) – Francisco Paulo do Nascimento Mendes (1910-1999); Matemática (6,9) – Alírio César; Química (6,8) – Benedito Cavaleiro de Macedo Klautau (1910-1968).

                         2.2 – Segundo Ano (2a-2a)
                   
                         Desenho (7,58) – João Prazeres; Física (7,95) – José Maria Conduru; Geografia Geral (8,08) – José Apolinário; História Geral(8,37) – Júlio de Alencar; História Natural (7,74) – Gisélia Câmara Leão;Literatura Francesa (7,35) – Américo Guerra; Literatura Inglesa(4,96) – Robert Clyde Skeete (1909-2009); Literatura Portuguesa(9,33) – Paulo Mendes; Matemática (8,95) – Alírio César; Química (8,62) – Benedito Klautau.

                         2.3 – Terceiro Ano (3a-2a)
                   
                         Desenho (9,63) – Renato Cristo Mendes Leite; Filosofia(6,11) – Raimundo Avertano Barreto da Rocha (1883-1960); Física (9,05) – José Maria Conduru; Geografia do Brasil (9,04) – José Apolinário;História do Brasil (7,06) – Benedito José Viana da Costa Nunes (1929-2011); História Natural (8,10) – Gisélia Leão; Literatura Portuguesa(7,68) – Paulo Mendes; Matemática (9,74) – Renato Conduru; Química(5,86) – Kayath.

                         Média Geral do Curso Científico – 7,61

                   3. Curso Superior

                        3.1 Engenharia Civil (EEP/UPA)

                        3.1.1 – Primeiro Ano
                   
                         Cálculo Infinitesimal (8,0) – Teivelino Guapindaia(1895-1970); Complementos de Geometria Descritiva, Elementos de Geometria Projetiva, Perspectiva e Aplicações Técnicas (9,0) –Omir Alves; Desenho à Mão Livre (7,0) – Milton de Abreu e Souza (1917-1993); Física (Primeira Cadeira) (7,0) – Miguel Paulo Bitar(n.1924); Geologia Econômica e Noções de Metalurgia (7,0) – Cláudio Lins de Vasconcelos Chaves (1903-1970); Geometria Analítica e Noções de Nomografia (10,0) – Renato Conduru.
                         
                         3.1.2 – Segundo Ano
                   
                         Desenho Técnico (8,0) – Camilo de Sá Porto de Oliveira (1923-2005); Física (Segunda Cadeira) (9,0) – Djalma Duarte; Mecânica Precedida de Elementos de Cálculo Vetorial (10,0) – Josué Justiniano Freire; Topografia (7,0) – João Dias da Silva (1889-1981)/ Loriwal Rei de Magalhães (n. 1934)                                                                                            

                         3.1.3 – Terceiro Ano
                    
                         Geodesia Elementar e Astronomia de Campo (7,0) – Raul Rodrigues Pereira (1915-1969); Mecânica Aplicada, Bombas e Motores Hidráulicos (8,0) – Antônio Ferreira Celso/José Chaves Camacho (1927-1998); Química Tecnológica e Analítica (7,0) – Raymundo Felipe de Souza (1893-1965); Resistência dos Materiais eGrafoestática (8,0) – Ruy da Silveira Britto (1913-1970).

                         3.1.4 – Quarto Ano
                   
                         Estabilidade das Construções (8,0) – João Maria de Lima Paes (1915-2003); Estradas de Ferro e de Rodagem (10,0) – LuizBaganha; Hidráulica Teórica e Aplicada (9,0) – Ruy Britto/Alírio César;Materiais de Construção, Tecnologia e Processos Gerais de Construção (7,0) – Jarbas de Castro Pereira (1905-1980)/Osmar Prata.                

                         3.1.5 – Quinto Ano
                   
                         Construção Civil e Arquitetura (8,0) – Feliciano Seixas (1913-1971): Estatística, Economia Política e Finanças (9,0) – Homero Cabral (1923-2005); Higiene Geral, Industrial e dos Edifícios, Saneamento e Traçado de Cidades (6,0) – Lourival de Oliveira Bahia; Organização Industrial, Contabilidade Pública e Industrial, Direito Administrativo e Legislação (8,0) – Demócrito R.de Noronha; Pontes, Grandes Estruturas Metálicas e em Concreto Armado (7,0) – Hildegardo Bentes Fortunato (1918-1987); Portos de Mar, Rios e Canais (7,0) – Angenor Porto Pena de Carvalho (1911-1990); Termodinâmica e Motores Térmicos (8,0) - Otávio Bittencourt Pires (n.1926).
                   
                         Média Geral do Primeiro Curso Superior - 8,01

                         
                          3.2 Bacharelado em Física (UnB)
   
                          Eletromagnetismo I, II (SS) – Jayme Tiomno;Eletrônica Básica I, II (MS) - Dione Craveiro Pereira da Silva (n.1940);Física Atômica I (SS) – Roberto Salmeron; Física Atômica II (MS) – Fernando de Souza Barros (n.1929); Matemática para Físicos (SS) – Marco Antonio Raupp (n.1938); Variáveis Complexas (SS): MarcoRaupp.
                       
         Obs: Registre-se que esses conceitos têm o seguinte significado: MS (7-9) e SS (10). Desse modo, tem-se:

Média Geral do Segundo Curso Superior – 9,25
                                                
                   4. Pós-Graduação em Física (Mestrado e Doutorado – USP)

                     4.1 – Ano de 1968

                   Mecânica Quântica I (C) - Swieca, com aulas de exercícios ministradas pelas Professoras-Assistentes Rozy Nulman (n.1944) e SuelyAldrovandi (n.1943); Eletrodinâmica Clássica I (B) - Antônio Luciano Leite Videira (n.1936), com aulas de exercícios ministradas pelo Professor-Assistente Marcelo Gomes; Eletrodinâmica Clássica II (A) - Roland Koberle (n.1938); Introdução à Teoria da Relatividade (A) – Jayme Tiomno, com aulas de exercícios ministradas pelo Professor-Assistente Mauro Cattani.   

                        4.2 – Ano de 1969     

                         Dosimetria e Física das Radiações (A) - ShigueoWatanabe (n.1931); Introdução às Partículas Elementares (C) - Jun-ichi Osada (n.1929); Relatividade e Cosmologia (A) - Alberto Luís Rocha Barros (1929-1999); Magnetohidrodinâmica Não-Relativista(A): Roberto Mallet (c.1934-2010) e Djalma Mirabelli Redondo (n.1935). 

         Obs: Registre-se que esses conceitos têm o seguinte significado: C (5), B (8) e A (10). Desse modo, tem-se: Média Geral da Pós-Graduação Stricto Sensu – 8,5. Considerando-se todas as Médias Gerais, temos:

Média Geral Total - 7,984,

o que confirma ser eu um medíocre-lorentziano, segundo afirmei no início deste verbete.

                   5. Títulos Acadêmicos

                        5.1 – Mestrado em Física – 30/04/1973 (Orientador: Mauro Cattani)
                                                                          
                        Tratamento Quântico do Alargamento e Deslocamento de Linhas Espectrais Atômicas devido a Colisões Eletrônicas

                   Banca Examinadora: Mauro Cattani e Luiz Guimarães Ferreira (n.1937), do IF/USP; Paulo Roberto de Paula e Silva Leite (1927), doInstituto de Física da Universidade de Campinas (IF/UNICAMP).

                       5.2 – Doutorado em Física – 11/03/1975 (Orientador: Mauro Cattani)

                       Cálculo Quântico do Alargamento e Deslocamento da Linha $4³s-23p$ do Hélio em um Plasma

                   Banca Examinadora: Mauro Cattani, José Roberto Leite (1942-2004) e Marcelo Gomes, do IF/USP; Paulo Roberto, do IF/UNICAMP; José Antônio de Freitas Pacheco (n.1942), do Instituto Astronômico e Geofísico da USP (IAG/USP)


                       5.3 – Professor Titular da UFPA – 11/1989

                       O Oscilador Harmônico

                   Banca Examinadora: Mauro Cattani e Marcelo Gomes, do IF/USP; Bin Kang Cheng (1940), do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (DF/UFP); Curt Siqueira, doDepartamento de Física da UFPA (DF/UFPA); Carlos Dias, do Programa de Pós-Graduação em Geofísica do Petróleo da UFPA (PPGP/UFPA)
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Aspectos Inusitados da Vida de Einstein

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 Por José Maria Filardo Bassalo.


O físico alemão Albert Einstein nasceu em Ulm, no antigo estado alemão de Wüttemberg, sexta-feira, dia 14 de março de 1879, na rua Bahnhofstrasse, 20, segundo seu registro de nascimento. Seus pais chamavam-se Hermann (1847-1902) e Pauline Koch (1858-1920), que era excelente pianista. Ele teve uma irmã de nome Maja (Maria) (1881-1951). Seu pai e seu tio paterno Jakob (1950-1912), engenheiro mecânico, eram donos de uma oficina eletrotécnica. Aliás, era esse tio que lhe emprestava livros com problemas engenhosos de Álgebra, e que ficava muito eufórico quando seu sobrinho os resolvia. Em 1880, seus pais mudaram-se para Munique.
Einstein com 3 anos de idade em 1882
Einstein só começou a falar com a idade de três anos e, quando começou a falar, tinha o hábito de ensaiar mentalmente o que ia dizer, mexendo os lábios, e só depois repetia a frase em voz alta. Por causa disso, a empregada da família apelidou-o de “burro”. Com a idade de sete anos Einstein entrou na Volksschule, uma escola pública católica, sendo o único judeu, entre 70 alunos. Em outubro de 1888, matriculou-se no Luitpold Gymnasium, no qual, segundo seus biógrafos, desenvolveu um senso crítico às autoridades, bem como procurou ser sempre livre e independente. Esses aspectos de sua personalidade levaram seu professor de Grego, Joseph Degenhart, que foi um de seus ordinarius – professor responsável pelas tarefas escolares -, a dizer que Einstein não conseguiria ser nada na vida e que ficaria muito feliz se ele não assistisse mais suas aulas. Por outro lado, seu primeiro ordinarius, o professor de Latim e Alemão, Ferdinand Ruess, foi quem o introduziu nas leituras dos dramaturgos, o inglês William Shakespeare (1564-1616) e o alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). É interessante registrar que, nesse Ginásio, Einstein teve como professores de Física e de Matemática, respectivamente, Joseph Ducrue e Adolf Sickenburger.

Em outubro de 1895, com dois anos menos do mínimo permitido, Einstein prestou exame de admissão para a Polytechnikum, em Zurique, na Suíça, a famosa escola técnica, fundada em 1855 e que, em 1911, passou a ser chamada de Eidgenössische Technische Hochschule (ETH, “Escola Politécnica Federal”). Einstein foi aceito para fazer esses exames devido a alta recomendação de Sickenburger, seu professor de Matemática em Munique. Ele foi examinado em temas científicos (Matemática, Física, Biologia e Química), e em temas gerais (Literatura, História Política, Alemão e Francês), e foi reprovado em Biologia, Química e Francês. Ele pretendia ser engenheiro eletricista. Por recomendação do Diretor da ETH, professor Albin Hertzog, Einstein entrou na Kantonsschule (“Escola Cantonal”) de Aarau, que era capital do cantão de Aargau, ainda na Suíça, em outubro de 1895, para completar sua educação secundária, uma vez que tinha abandonado (alguns de seus biógrafos afirmam que ele foi expulso) o Luitpold Gymnasium. Em Aarau, Einstein morou na casa do professor Jost Winteler (1846-1929) a quem ele se afeiçoou a ponto de considerá-lo um segundo pai. Embora Winteler fosse professor da “Escola Cantonal”, ele não foi professor de Einstein. Nessa Escola de Aarau, Einstein teve aulas de Física com August Tuchsmidt, de Matemática com Heinrich Ganter, e de Química, Geografia Física e História Natural com Friedrich Muehlberg. Em setembro de 1896 ele voltou a fazer o exame de admissão na ETH, desta vez foi aprovado com notas máximas em Matemática, Física, Canto e Violino, porém não foi bem em Francês. Ele matriculou-se no Departamento VI (Escola para Professores Especializados em Matemática e Assuntos Científicos) da ETH, na Seção VI-A: Matemática, Física e Astronomia.

Como aluno da ETH, Einstein voltou a manifestar seu senso de liberdade e independência. Com efeito, certa vez, Einstein jogou no lixo o Manual de Laboratório de Física preparado pelo professor Johannes Pernet (1845–1902), catedrático de Física Experimental. Ao ver essa atitude de Einstein, Pernet reagiu dizendo-lhe: Você tem entusiasmo, mas não tem talento em Física. Para o seu bem, deveria fazer outra coisa, Medicina talvez, Literatura ou Direito. Einstein respondeu-lhe com as seguintes palavras: 
Porque, senhor professor, eu tenho ainda menos talento para esses assuntos. Por que não deveria, ao menos, tentar a minha sorte com a Física? 
Por outro lado, como Einstein faltava com freqüência as aulas de Pernet e realizava as práticas de laboratório de maneira independente sem ouvir suas instruções, esse professor deu-lhe a nota mínima 1, apesar de seu assistente haver-lhe dito que, embora heterodoxas, as soluções de Einstein sempre eram corretas. De outra feita, como Einstein manifestara desprezo pela autoridade de seu professor, o físico alemão Heinrich Friedrich Weber (1843-1912), catedrático de Física-Matemática e Técnica, ouviu deste a seguinte afirmação: 
Você é um rapaz inteligente, Einstein, um rapaz muito inteligente; mas tem um grande defeito: não ouve o que os outros dizem. 
Hermann Minkowski em 1909
É ainda interessante registrar que o grande matemático russo-alemão Hermann Minkowski (1864-1909) (quem, mais tarde, chamaria a atenção de Einstein para o Cálculo Tensorial, importante assunto matemático que lhe permitiu desenvolver a Teoria da Relatividade Geral, em 1915), professor de várias disciplinas de Matemática na ETH, chegou a chamar Einstein de “cão preguiçoso” por causa das constantes ausências em suas aulas. Registre-se que Einstein formou-se em Física em 27 de julho de 1900, com as seguintes notas (para um máximo de 6 e um mínimo de 1) em seu exame final: Física Experimental – 5 (peso 2); Física Teórica – 5 (peso 2); Astronomia- 5 (peso 1); Teoria das Funções – 5,5 (peso 2); Tese de Graduação – 4,5 (peso 4); Nota Final – 54 pontos. O primeiro lugar foi de Louis Kollros (1878-1959), com 60 pontos; o segundo lugar foi o do seu grande amigo, o matemático Marcel Grossmann (1878-1936), nascido em Budapeste, com 57,5 pontos; o terceiro foi de Jakob Ehrat (1876-1960), com 56,5 pontos. Einstein foi o quarto. Aliás, era Grossmann quem emprestava as notas das aulas para Einstein pois, insatisfeito com seus professores que não lhe ensinarem assuntos mais modernos, como, por exemplo, ocorria com Weber que não ensinava a Teoria Eletromagnética Maxwelliana, nas diversas disciplinas que ensinava (ver a relação delas no citado livro dos Medeiros), Einstein faltava às aulas para estudar aqueles assuntos. Registre-se que, em 21 de fevereiro de 1901, Einstein se tornou cidadão suíço.

Mileva Maric em 1896
Foi na ETH que Einstein se apaixonou por sua colega de turma, Mileva Maric (1875-1948), nascida de pais católicos na cidade de Titel, em Vojvodina, então na Hungria. (Aliás, Mileva foi reprovada no exame final que fez junto com Einstein, pois conseguiu apenas 44 pontos.) Em 1901, tiveram uma filha de nome Liesl (apelidada de Lieserl, que significa pequena Liesl), cujas referências a ela, por parte de Einstein e Mileva, terminaram em setembro de 1903. Não se sabe ao certo se essa criança faleceu ou se foi adotada por essa época. Einstein e Mileva casaram-se no dia 06 de janeiro de 1903, e desse casamento, nasceram os filhos Hans Albert (1904-1973), engenheiro civil pela ETH, professor de Engenharia Hidráulica na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e na Universidade de Iowa, e construtor das mais importantes barragens no mundo todo, e Eduard (1910-1965), que era muito talentoso para as artes, estudou psiquiatria na Universidade de Zurique e morreu confinado em um Hospital Psiquiátrico, em Burghölzli, na Suíça.

Em junho de 1914, Einstein se separou de Mileva e se divorciaram em 14 de fevereiro de 1919. Ainda em 1919, no dia 02 de junho, Einstein casou-se com sua prima, também divorciada, Elsa Einstein Löwenthal (1876-1936).

Retrato oficial de Einstein em 1921
depois de receber o Prêmio Nobel de Física.
Em 09 de novembro de 1922, recebeu o Prêmio Nobel de Física de 1921, pela descoberta da lei do efeito fotoelétrico e por trabalhos em Física Teórica. O valor desse Prêmio, cerca de 32.000 dólares, Einstein transferiu para Mileva, em 1923. Ele tornou-se cidadão norte-americano, em 01 de outubro de 1940, conservando, no entanto, seu passaporte suíço. Einstein morreu a uma hora e quinze minutos da manhã de 18 de abril de 1955, segunda-feira, de ataque cardíaco, no Princeton Hospital, com a assistência da enfermeira Alberta Rozsel. Ele foi cremado no Ewing Crematorium, em Trenton, quatro horas da tarde desse mesmo dia 18, e suas cinzas foram espalhadas pelo economista germano-norte-americano Otto Nathan (1893-1987) e pelo químico, filósofo e industrial alemão Paul Oppenheim (1885-1977) nas proximidades do crematório e em lugar não revelado.

Enquanto estudava na ETH, Einstein completava a pequena mesada que ganhava de uma tia materna dando aulas particulares de Física e de Matemática e, por pouco tempo (16 de maio-11 de julho de 1901), ensinou Matemática na Escola Técnica de Winterthur, substituindo o professor Jakob Rebstein (1845-1933), que o indicou pois o conhecia quando o ensinou na ETH e, entre outubro de 1901 e janeiro de 1902, foi professor no Internato de Schaffhausen. Preocupado com essa situação financeira de Einstein, Marcel Grossmann falou ao seu pai para arranjar um emprego para seu amigo Albert. Desse modo, o pai de Marcel conversou com seu amigo, o engenheiro mecânico suíço Friedrich Haller (1844-1936), Diretor do Escritório (“Bureau”) de Patentes, em Berna, para arranjar um emprego para Einstein. Registre-se que, em dezembro de 1901, esse “Bureau” abrira uma vaga de engenheiro de segunda classe para seu quadro de empregados e Einstein havia se candidatado para ocupar tal vaga. Depois de ouvir Einstein por cerca de duas horas, Haller percebeu que o amigo de Marcel não tinha muita habilidade técnica, porém, tinha um profundo conhecimento da Teoria Eletromagnética Maxwelliana, que aprendera sozinho, pois ela não fazia parte do ensino que recebera na ETH. Em vista disso, ofereceu-lhe o emprego de perito-técnico de terceira classe. Einstein foi admitido no dia 16 de junho de 1902, e começou a trabalhar no dia 23 desse mesmo mês. Ele trabalhou nesse “Bureau” até julho de 1909 onde, segundo Infeld (ver livro citado), ele estudava pouco, mas meditava muito.

Enquanto estava em Berna e antes de trabalhar no Escritório de Patentes, Einstein se mantinha dando aulas particulares de Física, anunciadas em um jornal local, com os dizeres: Albert Einstein, antigo aluno da Escola Politécnica de Zurique, dá aulas de Física, por três francos por hora. Um dos primeiros alunos de Einstein foi o jovem arquiteto romeno Maurice Solovine (1875-1958), estudante de filosofia e literatura na Universidade de Berna, que leu esse anúncio, na Páscoa de 1902, e se dirigiu ao primeiro andar da rua Gerechtigkeitsgasse, 32, onde morava Einstein. No primeiro encontro, conversaram durante duas horas, sobre vários assuntos, e acertaram aulas diárias de Física. No terceiro dia, Einstein desistiu de ser professor particular de Solovine, e lhe falou: Você não precisa de aulas de Física; nossa discussão de problemas originados na Física é muito mais interessante. Continue vindo me ver e terei o maior prazer em conversar com você. Semanas depois, um terceiro personagem passou a fazer parte dessa discussão, seu amigo e ex-colega da ETH, com domicílio em Schaffhausen, o engenheiro alemão Conrad Habicht (1876-1958), que realizava o Doutorado de Matemática na Universidade de Berna. Assim, ainda em 1902, os três fundaram a Akademie Olympia, que funcionava em cafés da cidade, cervejarias, recitais de música e em caminhadas nos fins de semana. Depois do casamento de Einstein e Mileva, no começo de 1903, conforme já registramos (cujos padrinhos foram Solovine e Conrad), as reuniões também se realizavam no pequeno apartamento dos Einstein, na rua Kramgasse, 49. Durante essas reuniões, ocasionalmente, Einstein tocava violino, que aprendera a tocar desde os seis anos de idade por indicação de sua mãe.

Da esquerda para a direita:
Conrad Habicht, 
Maurice Solovine e Einstein,
fundadores da Akademie Olympia
Na Akademie, os “três mosquiteiros intelectuais” estudaram os trabalhos de Física e Matemática de Karl Pearson (1857-1936) (matemático inglês), Ernst Mach (1838-1916) (físico e filósofo austríaco), Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz (1821-1894) (físico e fisiologista alemão), André Marie Ampère (1775-1836) (físico e matemático francês), Georg Friedrich Bernhard Riemann (1826-1866) (matemático alemão) e Jules Henri Poincaré (1854-1912) (físico, matemático e filósofo francês). Deste, estudaram também seu famoso livro La Science et l´Hypothese, publicado em 1905. Além disso, discutiram as idéias de Platão (c.427-c.347) (filósofo grego), Benedict Baruch de Spinoza (1632-1677) (filósofo holandês), David Hume (1711-1776) (filósofo escocês), John Stuart Mill (1806-1873) (filósofo inglês), Richard Heinrich Ludwig Avenarius (1843-1896) (filósofo alemão) e de outros filósofos, entremeadas com leituras da literatura clássica de Sófocles (496-406) (dramaturgo grego), Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) (novelista espanhol), Jean-Baptiste Racine (1639-1699) (poeta francês) e Charles John Huffam Dickens (1812-1870) (novelista inglês). Note-se que, por essa época, Einstein tinha também um grande amigo (e que permaneceu seu amigo até morrer, um pouco mais de um mês antes da morte de Einstein), o engenheiro mecânico ítalo-suíço Michelangelo Besso (1873-1955) que, apesar de não ser “acadêmico”, foi quem chamou a atenção de Einstein para os trabalhos de Mach. Aliás, foi Einstein quem levou Besso a trabalhar no Registro de Patentes, em 1904. É oportuno registrar que Einstein dedicou a Besso seu famoso trabalho de 1905, intitulado Elektrodynamik bewegter Körper (“Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento”), publicado no Annalen der Physik 17, p. 891, mais tarde conhecido como a Teoria da Relatividade Restrita.

O início do questionamento científico de Einstein ocorreu em 1894 ou 1895, quando escreveu um artigo intitulado Über die Untersuchung des Ätherzustandes in magnitischen Fielde (“Sobre a Pesquisa do Estado do Éter em um Campo Magnético”), com apenas cinco páginas, no qual, ele, com apenas 16 anos, propunha uma experiência para estudar o comportamento do éter em um campo magnético. Esse trabalho foi enviado de Pavia, onde morava, para seu tio materno Caesar Koch (1854-1941), na Bélgica, junto com uma carta na qual ele falava na sua vontade de estudar na ETH. Note-se que, quando criança, Einstein recebeu desse seu tio uma pequena máquina a vapor, que o fazia esquecer da vida enquanto brincava com ela. [Registre-se que o artigo e a carta referidos acima foram reproduzidos pelo físico e filósofo da ciência indiano-norte-americano Jadish Mehra (n.1931), em 1971 (Physikalische Blätter 27, p. 385).] Foi ainda por volta de 1895 que Einstein questionou as conseqüências físicas de uma pessoa que se deslocasse com a velocidade da luz. Como se vê, desde cedo Einstein já apresentava questões altamente interessantes e de grande conteúdo científico investigatório. Certamente esse espírito questionador começou quando ele tinha cerca de quatro anos de idade ao examinar, com curiosidade, uma bússola que o pai lhe mostrou.

Considerando que uma carreira científica está diretamente vinculada à publicação de artigos em revistas especializadas, pode-se dizer que a de Einstein teve início em 1901, com a publicação do artigo Folgerungen aus den Kapillaritäserscheinungen (“Deduções dos Fenômenos de Capilaridade”) no Annalen der Physik 4, p. 513. É oportuno notar que esse artigo foi escrito quando ele ensinava na Escola Técnica de Winterhur. Ele teve a inspiração para escrever esse depois de ouvir uma aula teórica, sobre capilaridade, que Minkowski ministrou em 1900. Essa aula o impressionou tanto que Einstein chegou a dizer ao seu colega Kollros que ela teria sido a primeira aula verdadeiramente de Física-Matemática que havia assistido na ETH.

Ainda em 1901, em novembro, Einstein submeteu à Universidade de Zurique (UZ) (pois, por essa época, a ETH ainda não oferecia o Doutoramento) sua Tese de Doutoramento, intitulada Eine Neue Bestimund der Moleküldimension (“Uma Nova Fixação Dimensional das Moléculas”), elaborada sem nenhuma assistência de qualquer professor. Vejamos a razão dessa atitude de Einstein. Na tentativa de obter um emprego de professor assistente em alguma universidade européia fora de Zurique, uma vez que fora recusado a ser assistente de algum professor da ETH, Einstein enviou copias de seu primeiro artigo publicado para professores famosos, como o físico austríaco Ludwig Edward Boltzmann (1844-1906), da Universidade de Leipzig, o físico alemão Wilhelm Carl Werner Otto Fritz Franz Wien (1864-1928; PNF, 1911), da Universidade de Breslau, e o físico-químico alemão Friedrich Wilhelm Ostwald (1853-1932; PNQ, 1909), da Universidade de Leipzig. Este, sem Einstein saber, também recebeu uma carta de seu pai Hermann solicitando emprego ao filho. Einstein escreveu também para os físicos, o holandês Heike Karmelingh Onnes (1853-1926; PNF, 1913), da Universidade de Leiden, o italiano Augusto Righi (1850-1920), da Universidade de Bolonha, e o alemão Carl Adolph Paalzow, da Universidade de Berlim. Einstein não recebeu nenhuma resposta desses eminentes professores. Em vista dessas recusas, Einstein resolveu obter seu Doutoramento, pois soube que o físico alemão Carl Victor Eduard Riecke (1845-1915), da Universidade de Goettingen, precisava de dois assistentes-doutores. É oportuno registrar que Ostwald indicou o nome de Einstein para receber o PNF nos anos de 1909, 1910, 1913 e 1914.

Einstein em 1904, aos 25 anos de idade.
Inicialmente Einstein sondou Weber, no inverno de 1900-1901, a ser orientador de sua Tese de Doutoramento, uma vez que ele havia sido seu orientador da Diplomarbeit (“Diploma de Graduação”). Ele pretendia desenvolver um trabalho sobre o efeito Thomson, o que foi aceito por Weber. No entanto, Einstein resolveu estender seu primeiro artigo, que tratava com as “forças moleculares”, aos gases. Weber não aceitou e, então, Einstein resolveu desenvolvê-la sozinho. (Mais detalhes da relação conflituosa entre Einstein e Weber, ver o livro dos Medeiros.) Essa Tese, que apresentava um método hidrodinâmico de determinar dimensões moleculares, foi examinada pelo físico suíço Alfred Kleiner (1849-1916) que a recusou por considerá-la muito curta, pois apresentava apenas 21 páginas, e devolveu a Einstein, em 01 fevereiro de 1902, inclusive com a taxa de inscrição: 230 francos suíços. Depois de refazê-la, em 30 de abril de 1905 e dedicá-la ao amigo Marcel Grossmann, ele voltou a apresentá-la em 20 de julho de 1905 à UZ, acrescida apenas de mais uma sentença, conforme Einstein comentou, às gargalhadas, anos mais tarde. Ela foi então imediatamente aprovada por Kleiner e pelo físico suíço Heinrich Burkhardt (1861-1914) quem, inclusive, conferiu os cálculos matemáticos nela envolvidos. É oportuno destacar que, ainda em 1905, Einstein publicou seus famosos artigos, que constituem o marco de sua celebridade: Efeito Fotoelétrico (Annalen der Physik 17, p. 132), Movimento Browniano (Annalen der Physik 17, p. 549), e Relatividade Restrita, já referido. O artigo sobre o Movimento Browniano apresenta resultados que são subprodutos de sua Tese de Doutoramento. Para uma análise crítica dessa Tese, ver o citado livro de Stachel.

Sobre essa Tese (publicada em 1906, no Annalen der Physik 19, p. 289, sem a dedicatória a Grossmann), há fatos inusitados a comentar. Independentemente de Einstein, o físico australiano William Sutherland (1859-1911) encontrou, em 1905 (Philosophical Magazine 9, p. 781), o mesmo resultado encontrado por Einstein para o coeficiente de difusão D de um soluto, resultado esse que depende do número de Avogadro $N$. Ainda em sua Tese, Einstein deduziu uma expressão para o coeficiente de viscosidade de um líquido com ($k^*$) e sem ($k$) moléculas em suspensão: $k^* = k(1 + f)$, onde $f$ representa a fração do volume ocupado pelas moléculas solutas. Em 1909 (Annales de Chimie et Physique 18, p. 1), o físico francês Jean Baptiste Perrin (1870-1942; PNF, 1926) determinou $N$ e encontrou um valor diferente da fórmula de Sutherland-Einstein. Em 1910, Jacques Bancelin, aluno de Perrin, realizou um estudo experimental sobre os coeficientes de viscosidade dados pela expressão acima, e encontrou que $f$ deveria ser multiplicado pelo fator $3,9$, a não o valor $1$ como indicava a referida expressão.

Ao receber de Bancelin essa informação, Einstein passou a rever seus cálculos. Como não encontrou nenhum erro, escreveu a seu aluno Ludwig Hopf (1884-1939), em janeiro de 1911, dizendo-lhe: Você faria um grande favor se refizesse cuidadosamente minha investigação. Ou há um erro no trabalho, ou o volume da substância em suspensão de Perrin, no estado de suspensão, é maior do que ele acredita. Hopf refez os cálculos e mostrou que Einstein havia errado nas derivadas dos componentes das velocidades nas equações para os componentes de pressão. Após a correção do erro, Hopf encontrou que o fator multiplicativo de $f$ seria $2,5$, e não o $3,9$ de Bancelin. Em 1911 (Annalen der Physik 34, p. 591), Einstein publicou um trabalho no qual corrigiu sua fórmula, introduzindo o valor calculado por Hopf. É oportuno registrar que, em maio de 1911, Bancelin apresentou à Academia Francesa de Ciências os resultados de novas experiências sobre a medida da viscosidade, nos quais apresentava o valor $2,9$ como coeficiente de $f$ na expressão de Einstein-Hopf. É curioso como Burkhardt, que conferiu os cálculos matemáticos da Tese de Einstein conforme relatamos acima, não tenha percebido esse erro.

Durante toda a vida científica, Einstein escreveu mais de 300 artigos (ver relação no livro do Schilpp), a grande maioria deles escritos em alemão e apenas ele como autor. Desses 300 artigos, apenas 44 foram escritos com colaboradores, que foram os seguintes físicos (o número entre parêntesis indica o número de artigos): Johann Jakob Laub (1872-1962) (2); Hopf (2); Otto Stern (1888-1969; PNF, 1943) (1); Adriaan Daniel Fokker (1887-1968) (1); Grossmann (1); Wander Johannes de Haas (1878-1960) (4); Hans Mühsam (1876-1957) (1); Jakob Grommer (1879-1933) (2); Paul Ehrenfest (1880-1933) (1); Théophile de Donder (1872-1957) (1); Walther Mayer (1887-1948) (8); Richard Chase Tolman (1881-1948) (1); Boris Podolsky (1896-1966) (2); Willem de Sitter (1872-1974) (1); Nathan Rosen (1909-1995) (4); Leopold Infeld (1898-1968) (4); Banesh Hoffmann (1906-1986) (1); Peter Gabriel Bergmann (1915-2002) (2); Valentin Bargmann (1908-1989) (2); Wolfgang Pauli Jr. (1900-1958; PNF, 1945) (1); e Ernst Gabor Straus (1922-1983) (2).

Einstein em 1947
Muito embora, ao morrer em 1955 Einstein estivesse trabalhando na Teoria do Campo Unificado [cujo primeiro trabalho sobre esse tema, qual seja, a unificação entre as forças eletromagnética e gravitacional, ele o publicou em 1925 (Preussische Akademie der Wissenschaften zu Berlin, Mathematisch-physikalische Klasse, Sitzungsberichte, p. 414)], o seu último artigo científico foi publicado em 1949 (Canadian Journal of Mathematics 3, p. 209) e escrito em colaboração com Infeld, com o seguinte título: Motion of Particles in General Relativity Theory. É oportuno registrar que durante a carreira científica de Einstein, ninguém jamais obteve o grau de Doutor em Física sob a sua orientação, muito embora haja tido alguns alunos de Doutoramento, sendo Hans Tanner (1886- ? ), o primeiro deles quando Einstein ensinava na Universidade de Zurique, na qual lecionou entre outubro de 1909 e abril de 1911.




Na conclusão desse verbete sobre alguns aspectos inusitados da vida de Einstein, relataremos mais dois deles. O primeiro se relaciona com a sua religião; o segundo, com a sua famosa foto com a língua de fora. Vejamos a sua religião. É muito difícil resumir em poucas palavras o que Jammer, no livro referido no final deste verbete, escreveu sobre a religião de Einstein. Por isso, escolhi apenas duas frases suas que, para mim, sintetizam o pensamento Einsteiniano sobre a Religião. A primeira delas é o resumo que fez de sua Filosofia da Religião: A Ciência sem Religião é manca, a Religião sem Ciência é cega. A segunda frase, ele a proferiu quando o Rabino Herbert S. Goldstein, da Sinagoga Institucional de Nova York, lhe telegrafou perguntando: O senhor acredita em DEUS?. Recebeu dele a seguinte resposta: Acredito no DEUS de Spinoza, que se revela na harmonia de todos os seres, não no DEUS que se interessa pela sorte e ação dos homens. Esse telegrama do Rabino Goldstein foi motivado por uma recomendação feita, em abril de 1929, pelo Cardeal O´Connell, Arcebispo de Boston, e destinada aos membros do Clube Católico Americano de Nova Inglaterra: Não leiam a Teoria da Relatividade Einsteniana, porque ela é uma especulação confusa, que produz a dúvida universal sobre Deus e Sua Criação; ela encobre a assustadora aparição do ateísmo.

Agora, vejamos como ocorreu a fotografia com a língua de fora. No livro de Andrew Robson, referido no final deste verbete, aparece essa famosa foto de Einstein, tirada pelo fotógrafo Arthur Sasse, no dia 14 de abril de 1951, quando ele completava 72 anos de idade. Ele se encontrava no interior de um automóvel, e se dirigia para a solenidade de entrega do primeiro Einstein Awards for Achievements in Natural Sciences (“Prêmio Einstein para Feitos nas Ciências Naturais”). Essa atitude de Einstein foi a resposta ao seguinte pedido de Sasse: Um sorriso para vosso aniversário, professor.

Segundo contou-me meu amigo, o físico brasileiro Jayme Tiomno (n.1920), essa não foi a única oportunidade que Einstein teve para colocar a língua de fora. Quando Tiomno fazia seu Doutoramento na Universidade de Princeton, no começo da década de 1950, em uma conferência proferida por Einstein, que então trabalhava no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, ele pediu aos ouvintes que tentassem conter a Guerra Fria - corrida armamentista entre os Estados Unidos e a então União Soviética, ocorrida em seu período mais crítico, entre 1949 e 1953. Seu pedido era no sentido de os ouvintes mandarem cartas para os principais mandatários desses países para pedirem o término dessa Guerra. Aí, então, ele colocou a língua de fora oferecendo saliva para colar os selos das cartas. Não sei se houve alguma fotografia desse ato de Einstein.


Para este verbete, usei como referência, basicamente, os seguintes textos: 
  • Leopold Infeld, Albert Einstein: A sua Obra e a sua Influência no Mundo Contemporâneo (Charles Scribner´s Sons, 1950); 
  • Paul Arthur Schilpp (Editor), Albert Einstein: Philosopher-Scientist (Open Court/Cambridge University Press, 1970); 
  • Albert Einstein, Écrits Politiques (Seuil/CNRS, 1991); 
  • Abraham Pais, Subtle is the Lord... The Science and the Life of Albert Einstein (Oxford University Press, 1983); 
  • Isaías Golgher, O Universo Físico e Humano de Albert Einstein (Oficina de Livros, 1991); 
  • Michel Paty, Einstein Philosophe (Presses Universitaires de France, 1993); 
  • Abraham Pais, Einstein Lived Here (Clarendon Press e Oxford University Press, 1994); 
  • Ildeu de Castro Moreira e Antonio Augusto Passos Videira (organizadores), Einstein e o Brasil (Editora UFRJ, 1995); 
  • Max Jammer, Einstein e a Religião: Física e Teologia (Contraponto, 2000); 
  • Alfredo Tiomno Tolmasquim, Einstein: O Viajante da Relatividade na América do Sul (Vieira & Lent, 2003); 
  • John Stachel (organizador), O Ano Miraculoso de Einstein: Cinco Artigos que Mudaram a Face da Física (Editora UFRJ, 2001); 
  • Carlos Alberto dos Santos, O Plágio de Einstein (WS Editor, 2003); Thomas Levenson, Einstein em Berlim (Objetiva, 2003); 
  • Andrew Robson, Einstein: Os 100 Anos da Teoria da Relatividade (Campus/Elsevier, 2005); 
  • Stephen Hawking, Os Gênios da Ciência: Sobre os Ombros de Gigantes (Campus/Elsevier, 2005); 
  • Michio Kaku, O Cosmo de Einstein: Como a visão de Albert Einstein transformou nossa compreensão de espaço e tempo (Companhia das Letras, 2005); 
  • Alexandre Medeiros e Cleide Farias de Medeiros, Einstein e a Educação (Livraria da Física, 2006).
Texto retirado e adaptado do site: http://www.searadaciencia.ufc.br/folclore/folclore120.htm
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